E continuamos a viajar pelos “canhões da memória” que Portugal esqueceu de preservar…
A 3ª Bateria de Costa da Lage está camuflada pela natureza envolvente entre a estrada Marginal e a linha ferroviária de Cascais. Situada na freguesia Paço de Arcos, no concelho de Oeiras. Foi construída entre 1893 e 1911. Integrava o sistema de fortificações do Campo Entrincheirado de Lisboa (CEL), nomeadamente a frente marítima de defesa de Lisboa e da foz do estuário do rio Tejo. Mais tarde, pertenceu ao conjunto de oito Baterias de Artilharia de Costa do Exército que formavam o extinto Regimento de Artilharia de Costa (Grupo Norte).

Um pouco de História…
Situada num local estratégico que domina a entrada da barra do Tejo, a actual Bateria da Laje, assim conhecida pela proximidade à Ribeira da Laje, em 1902, era designada como Bateria Rainha Maria Pia, em memória da viúva do monarca D.Luís I. Projectada pelo Major de Engenharia Firmino José da Costa, tendo a 1 de Março de 1887 começado a ser edificada sob a direcção do Capitão Sarmento de Fonseca, auxiliado pelo tenente Hermano de Oliveira. Apesar de ter sido concluída, em 1889, a Bateria só foi equipada com três bocas de fogo Krupp nos princípios do século XX.

No âmbito do Regimento de Artilharia de Costa (RAC), a 3ª Bataria da Laje estava integrada no Grupo Norte do complexo sistema de fortificações do “Plano Barrow”. Esta bateria de artilharia de costa tem uma imensa frente marítima, desde Algés até à entrada da barra do Tejo, em Oeiras. À semelhança das 5ª e 8ªBaterias da Raposeira (Trafaria) e de Albarquel (Setúbal) estava equipada com 3 peças de fogo Krupp CTR 15 cm de curto e médio alcance e contribuía para a defesa de proximidade da barra do Tejo. Contava, nas proximidades, com o apoio adicional da 2ªBateria da Parede. Esta instalação militar contava, ainda, com um quartel, casamatas e paióis para alojamento do material e pessoal militar que prestava serviço nesta antiga unidade militar do Exército Português. Perdida a sua função militar, em 1998, as instalações militares foram cedidas à Associação de Comandos que, actualmente, proporciona um espaço verde para actividades de Desporto e Aventura.

Ao percorrermos as instalações desta antiga unidade militar, comprovamos a excepcionalidade do espaço edificado e do seu aproveitamento lúdico. Logo à entrada, encontra-se um restaurante que fornece almoços aos visitantes e associados. Aos fins-de-semana, a azáfama é ainda maior com a visita de inúmeros associados e curiosos pelo espaço em redor. Para além de um serviço de restauração, no plano superior da bateria, podemos encontrar um pinhal que oferece diversas valências para recreação de pequenos e graúdos, designadamente uma pista de obstáculos para preparação física e militar (Rappel e Slide), além de um espaço para merendas. Também é possível realizar acampamentos – os escuteiros utilizam o espaço para as suas actividades – com vista para um dos melhores miradouros da zona ribeirinha do estuário do rio Tejo, onde temos o Farol de São Lourenço do Bugio a dominar o cenário envolvente.

Neste espaço ecoa a memória dos canhões que o tempo calou, (re)vivem-se tradições militares e projectam-se vivências de outros tempos. Este Centro de Desporto e de Aventura é um bom exemplo de como conservar a memória do património edificado em Portugal. É de salientar o reconhecimento do papel social, recreativo e cultural, assim como zelar cuidadosamente e manter em bom estado o património local de Oeiras e bélico do antigo RAC à comunidade civil em geral. Há que manter vivo os elos que nos ligam ao nosso passado e que fortalecem o nosso sentido de pertença e identidade.

Fragmentos da História de Portugal…
Sabia que a estátua do coronel Vicente Nicolau Mesquita (1818-1880), militar de origem macaense que foi protagonista da tomada do forte de Passaleão (1849), um confronto entre Chineses e os Portugueses. Esta estátua figurou no Largo do Senado (Macau) entre 1940 e 1966, encontrando-se, desde Fevereiro de 2017, nas instalações da Bateria da Laje, após ter sido doada, em 1986, à Associação de Comandos Governador de Macau, Contra-Almirante Vasco Almeida e Costa. Trata-se de uma estátua em bronze, da autoria de Maximiliano Alves, realizada na vigência do Estado Novo (1933-1974). Se quiser saber mais informações, poderá consultar o seguinte artigo.

Nas instalações existem duas chaimites parqueadas (o veículo icónico da Revolução dos Cravos de 25 Abril de 1974) uma das quais a comandada pelo coronel Jaime Neves, Comandante do Regimento de Comandos da Amadora que, a 25 Novembro de 1975, teve um papel crucial nas operações militares na área de Lisboa, no contexto do Processo Revolucionário em Curso (PREC) e do Verão Quente de 1975.

E nas proximidades…uma bela supresa!
Depois de conhecer “por dentro” a Bateria da Laje, aproveitamos ainda o resto da tarde para uma caminhada pelo passeio marítimo de Oeiras. Nas proximidades da ribeira da Laje, situada junto à praia de S. Amaro em Oeiras e à estrada da Marginal, deparei-me com a antiga Bateria do Areeiro. Construída entre 1903 e 1908, integrava o antigo Campo Entrincheirado de Lisboa (CEL), nomeadamente os fortes responsáveis pela frente marítima de defesa do Porto de Lisboa. Mais tarde, entre 1946 a 1953, esteve integrada no Regimento de Artilharia de Costa (RAC). Foi guarnecida com 4 peças de artilharia de 75 milímetros e 45 calibres de comprimento até 1943. Para quem a visita, é visível a degradação desta fortificação costeira face ao abandono a que foi votada, depois de a Marinha Portuguesa deixar de a utilizar como torre de radar de controle do Porto de Lisboa. A sua arquitectura é muito semelhante à bateria das Alpenas, mas com uma menor escala e dimensão. Mais uma ruína bélica esquecida pelo Homem e entregue ao tempo.

Como chegar:
As instalações bélicas desta antiga unidade da Artilharia de Costa estão abertas à comunidade civil e aos associados da Associação de Comandos. Para saber mais informações, o leitor poderá contactar para o seguinte e-mail:
bateriadalaje@gmail.com
Rua D. Nuno Álvares Pereira, Paço d’Arcos – Oeiras GPS- N38º 41´11″ W9º 18´32″.
Para reservas e contactos:
Tel: 218 261 075
Para mais informações:
CALLIXTO, Carlos Pereira, Fortificações Marítimas do Concelho de Oeiras, Oeiras: Câmara Municipal de Oeiras, 1988.
Bateria do Outão e Forte Velho do Outão – SIPA: Sistema Informação para o Património Arquitectónico. [Em linha]. [Consultado em 30 Dez. 2014]. Disponível na internet URL: <http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=25039 >
Forte-Presídio Naval da Trafaria – SIPA: Sistema Informação para o Património Arquitectónico. [Em linha]. [Consultado em 30 Dez. 2016]. Disponível na internet URL: <http://www.monumentos.pt/Site/APP_PagesUser/SIPA.aspx?id=32962 >
COSTA, António José Pereira da – A cidadela de Cascais e a Defesa da Costa Marítima do Guincho ao Estoril. In: “Boletim do AHM”, Lisboa, vol. 63 (1998 – 1999), pgs. 37 – 98.
EMERECIANO, Jaime – A Artilharia na Defesa de Costa em Portugal. Lisboa: Academia Militar, Dissertação Mestrado em Ciências Militares, especialidade de Artilharia, 2011. Disponível na internet URL: http://comum.rcaap.pt/handle/123456789/7247
MACHADO, M. (22 de Dezembro de 2008). Os Últimos Disparos do “Muro do Atlântico” Português. Obtido em Fevereiro de 2011, de http://www.operacional.pt: http://www.operacional.pt/os-ultimos-disparos-do-%E2%80%9Cmuro-doatlantico%E2%80%9D-portugues/
MASCARENHAS, Catarina de Oliveira Tavares – Da defesa à contemplação da paisagem : intervir no lugar do Forte e da 7ª Bateria do Outão no contexto da Arrábida. – Lisboa : FA, 2014. Tese de Mestrado.
Nota importante [👤]
As presentes informações não têm natureza vinculativa, funcionam apenas como indicações, dicas e conselhos, e são susceptíveis de alteração a qualquer momento. O Blogue OLIRAF não poderá ser responsabilizado pelos danos ou prejuízos em pessoas e/ou bens daí advenientes. Se quiser partilhar ou divulgar as minhas fotografias, poderá fazê-lo desde que mencione os direitos morais e de autor das mesmas.
💻 Texto: Rafael Oliveira 🌎 Fotografia: Oliraf Fotografia 📷
Follow me: @oliraffotografia on Instagram | Oliraf Fotografia on Facebook
Fotografia✈︎Viagens✈︎Portugal © OLIRAF (2017)
📩 Contact: oliraf89@gmail.com



















