📌 À descoberta do Museu Militar de Elvas: um olhar fotográfico…

Elvas foi a “sentinela” do Reino de Portugal. Segundo o historiador Rafael Moreira (1986:80), “Do rigor teórico à urgência prática: a arquitectura militar, História da Arte em Portugal, vol. 8”, a cidade alentejana de Elvas foi o primeiro espaço fronteiriço a ser “fortificado de modo permanente” durante e depois da Guerra da Restauração em 1640, sendo então designada capital militar do Alentejo e a mais importante praça-forte que assegurava a Independência de Portugal, em virtude de estar a menos de 10 km da fronteira luso-espanhola. Esta vila alentejana, citando J.H.Saraiva (RTP Ensina), é um dos  lugares “mais ensanguentados e mais martirizados” do território português. Afinal, a 14 de Janeiro de 1659, foi aqui que ocorreu a Batalha das Linhas de Elvas.

O Museu Militar de Elvas é um reflexo desta importância histórico-militar para o nosso país. De facto, este espaço museológico contém um dos mais importantes acervos bélicos de Portugal Continental, onde podemos contactar com o passado histórico-militar com mais de três séculos. Importa salientar que, em 2012, a cidade de Elvas foi classificada Património Mundial da Humanidade como “CIDADE-QUARTEL FRONTEIRIÇA DE ELVAS E SUAS FORTIFICAÇÕES”, tendo recebido mais de um milhão de visitantes desde a sua distinção pelo comité da UNESCO.

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Incorporado no seio das fortificações abaluartadas (1645-1653), da autoria do jesuíta João de Cosmander, designadamente nas antigas instalações do Regimento de Infantaria 8 (Convento de São Domingos, a Muralha Fernandina e parte das muralhas e baluartes Seiscentistas), este espaço museológico tem inúmeros pontos e elementos  expositivos de interesse, tais como, o Centro de Interpretação do Património de Elvas, a História do Serviço de Saúde do Exército, o salão de Hipomóveis e Arreios Militares e inúmeras viaturas bélicas que fizeram parte da história-militar de Portugal do séc. XX. Tem como missão a “a promoção, a valorização, o enriquecimento e a exposição do património histórico-militar à sua guarda”, pode ler-se no site. Faz parte da Rede Portuguesa de Museus (RPM) da Direção Geral do Património Cultural (DGPC).

Trata-se do maior museu em área de implantação de Portugal. Ao todo são 150.000m2 e uma área coberta de 14.000m2. Actualmente a área deste espaço museológico ultrapassa os 3.500m2. Com uma elevada carga arquitectónica e histórica, este espaço tem um valiosíssimo património onde se História da cidade de Elvas e de Portugal. Pedras com História. O Quartel do Casarão faz parte de antigas dependências construídas no séc. XVIII, depois da campanha de 1762-63 pelo engenheiro militar Valleré, autor da traça do Forte de Nossa Senhora da Graça. Trata-se de um conjunto de antigas Casernas do Quartel da Cavalaria, hoje ocupadas por circuito expositivo sobre as comunicações do Exército Português. Cada uma ostenta um nome de um combate onde a arma de cavalaria se notabilizou, designadamente nos sertões de África nos finais do séc.XIX. mantendo ainda hoje a sua traça original.

O Salão Hipomóvel está localizado numa sala do inicio do séc XIX, quando uma parte do espaço era ocupado quartel de cavalaria, houve a necessidade de construir cavalariças para alojar 500 cavalos e milhares de soldados, estas desenvolviam se ao longo de toda a atual parada Mouzinho de Albuquerque, num comprimento total de 120 metros. Chegados a meados do séc XX, com a sucessiva substituição da força motora dos equinos pelos automóveis, e com a necessidade de proporcionar condições mais dignas aos militares que aqui prestavam serviço, foi desanexada parte da cavalariça para adaptação a refeitório de praças.

As salas de dedicadas ao armamento rebocado por animais (Hipomóveis), na sua quase totalidade artilharia, podemos encontrar exposto os seguintes objectos bélicos: tiro de Artilharia composto por 3 parelhas, armão de transporte de munições e peça“Scheneider Canet” de 7,5 mm Modelo 1904; Canhão revolve “Hotckiss”de 40mm Modelo 1904. Carro de Ferramenta de Esquadrão Modelo 1907. Peça de Artilharia 11,4 cm tiro rápido Modelo 1917; Ambulância de Campanha Modelo Francês do ano 1890; Peça “AB Bofors” calibre 75mm. Modelo 1934; Caixa de Cirurgia de Campanha com instrumentos e material sanitário.

O “amarelo militar” é uma constante ao longo do espaço exterior do Museu de Elvas, à excepção de um pequeno troço que contém as antigas muralhas fernandinas do séc.XIV. Ainda no exterior, o visitante poderá contactar com armamento pesado exposto ao ar livre, com inúmeras peças de artilharia rebocada. Em primeiro plano, obus de campanha 150mm, “Bofors”, de fabrico sueco, no ano de 1885. Em segundo plano, um obus de campanha de 150mm modelo 1937, de origem nipónica, desconhecendo-se a sua chegada ao nosso país. Ao fundo, podemos visualizar dois obuses de campanha de 140mm modelo 1942, de origem inglesa.

No espaço exterior do Museu Militar, o visitante pode contemplar a área envolvente das fortificações e muralhas abaluartadas da cidade de Elvas. É o caso do Forte de Nossa Senhora da Graça. Para mim, uma das mais belas fortificações do nosso país e, quiçá, do Mundo. De facto, a vista aérea deste fortificação do séc.XVIII espelha a beleza arquitectónica, enquadrada estrategicamente com a paisagem à sua volta. À primeira vista, desde o Quartel do Casarão, esta fortificação parece-nos “inofensiva” à distância. Foi erigido a pensar para resistir a cercos prolongados, atestando a sua solidez e à prova de bomba.

A “Coleção de Viaturas Militares do Museu Militar de Elvas” contém inúmeras viaturas histórico-militares que fizeram parte da História Militar de Portugal.  Na imagem, temos o “burro do mato” Mercedes Benz UNIMOG 411, de fabrico alemão,  foram intensamente usados desde 1957 até aos anos 80. Também esta é uma das viaturas emblemáticas das campanhas de África, podia transportar 10 militares, sem qualquer protecção, mas dispostos (costas com costas) de modo a poderem saltar rapidamente da viatura e reagir a emboscadas.  A icónica CHAIMITE V-200, veiculo da Revolução de 25 de Abril de 1974, que fazia uma visita-guiada pelos espaços do acervo do Museu Militar de Elvas.

Durante o “XI Encontro Nacional de Veículos Militares Antigos / Um Dia no Museu Militar – Elvas 2017”, organizado pelo Exército e pela Associação Portuguesa de Veículos Militares, tive a oportunidade de fotografar e andar em inúmeros veículos militares que fizeram parte da História Militar de Portugal. Com entrada livre, este  evento proporciona um conjunto de actividades pouco vulgares com esta dimensão em Portugal, onde podemos visualizar os veículos e carros de combate que pertenciam ao Exército e que foram recuperadas pela Associação Portuguesa de Veiculos Militares (APVM), em colaboração com o Exército Português. A maioria faz parte do nosso imaginário colectivo (Chaimite, Berliet-Tramagal, UMM, Unimogs,etc), especialmente para os apaixonados por temas bélicos, visto que muitas delas ajudaram a escrever as páginas da História de Portugal.

Os visitantes e os amantes de veículos militares poderão visualizar inúmeras demonstrações dinâmicas de todos os tipos de veículos militares, jipes, pesados de transporte, tratores de artilharia e blindados de combate (alguns exemplares raros), a reconstituição de cenários militares da Guerra colonial Portuguesa, II Guerra Mundial e Vietname, a iniciação à prática de slide e rapel, realizar visitas orientadas por guias especializados às coleções de transmissões e viaturas militares do MME, bem como passeios em veículos militares nos espaços do Museu. Na imagem podemos visualizar duas viaturas: do lado esquerdo um Unimog 404, de origem alemã, e do lado direito o AEC MATADOR 4X4 MA/40/44/46 com reboque de um obus de 140mm M1943, de origem britânica. Estes “clássicos bélicos” foram usadas no contexto africano, como veículos de transporte de pessoal, material e de  tracção de artilharia, respectivamente.

A Berliet-Tramagal GBC8KT 4X4 com uma metralhadora quádrupla de artilharia antiaérea 12,7 mm m/953, de origem norte-americana. Estes veículos foram adaptados no contexto da Guerra Colonial (1961-1974) e foram chamados a participar em inúmeras operações militares, em virtude da sua extraordinária capacidade em termos de ângulo e capacidade de tiro, sendo capazes de disparar contra alvos aéreos e terrestres. Foi possível comprovar que o material está em perfeita condições.

As reservas do Museu Militar de Elvas: junto às muralhas e baluartes seiscentistas existem inúmeras “carcaças” e peças de antigos carros de combate, veículos de transporte de tropas e artilharia rebocada que fizeram, e fazem, parte do nosso imaginário colectivo e alguns escreveram as páginas da História de Portugal e do Mundo. A maioria das reservas chegou dos inúmeros depósitos de material bélico do Exército Português, encontram-se a céu aberto aguardando a sua hora para recuperação, bem como outras estão colocadas em armazéns. Aguardam colocação na área visitável, consoante a disponibilidade dos voluntários da APVM e do recursos financeiros para comprar material para a sua reabilitação.

Na imagem acima podemos visualizar o icónico carro de combate M4 Sherman, de origem norte-americana, utilizado pelas forças aliadas em vários cenários da IIªGuerra Mundial contra as forças do Eixo. Neste caso, trata-se de um carro de combate do exército português aguardando a sua recuperação pelos associados da APVM, onde o objectivo é “manter a rolar”, evitando assim o esquecimento ou a sua condenação à sucata. Para quem nunca viu ou andou numa Chaimite, por exemplo, o trabalho da APVM proporciona (re) viver os tempos das picadas de África e os acontecimentos do 25 de Abril de 1974.

A Viatura Blindada de Reconhecimento Panhard EBR 75 17 Ton. 7,5cm 8X8 M/1959 é uma dos carros de combate icónicos da Revolução dos Cravos. Ao todo, em 1959, Portugal adquiriu 50 unidades  com a torre FL 10 e peça de 75 mm à França (Anciens Établissements Panhard-Levassor SA) Destas 21 foram enviadas para Angola (ficaram sediadas em Luanda e Silva Porto) e as restantes ficaram em Portugal Continental. Esta viatura esteve ao serviço do nosso país entre 1959 e 1984.

Na imagem acima temos o carro de combate M47 ‘Patton’, de origem norte-americana, que serviu no Exército Português, entre 1952 e 1984, na Escola Prática de Cavalaria. Fez parte de um episódios da Rua do Arsenal e da Ribeira das Naus, espaços onde ficou “decidido” o 25 de Abril de 1974. É gratificante aperceber-me que as autoridades militares estão conscientes da importância da preservação e valorização do património histórico-militar, bem como da sua abertura à comunidade civil. De facto, estes eventos proporcionam momentos lúdicos que nos ensinam a admirar e a olhar para a importância da salvaguarda do material circulante do Exército Português, bem como possibilita um incremento de visitantes para a temática do turismo militar na cidade de Elvas.

Em suma, este olhar fotográfico foi pequeníssima amostra das reservas, dos espaços e elementos que dão corpo ao Museu Militar de Elvas. A meu ver, a Associação Portuguesa de Veículos Militares tem feito um trabalho notável, tendo em conta, os parcos recursos humanos e financeiros à sua disposição. A maioria dos associados faz trabalho voluntário. Acima de tudo, estes nutrem uma grande paixão por veículos que fizeram parte dos episódios da História de Portugal, visto que uma vez por mês passa um fim-de-semana nas oficinas de Elvas a recuperarem os  veículos militares fabricados ou montados em Portugal: os icónicos camiões Berliet-Tramagal, blindados Chaimite, jipes Cournil e Alter da UMM.

Para mais informações:

Turismo do Alentejo

Câmara Municipal de Elvas

Museu Militar de Elvas

Blogue Operacional (Temas Militares)

Coordenadas: 38.881158,-7.159067 (ver no mapa)
Avenida de São Domingos 13,
7350-047 ELVAS – Elvas
+351 268636240
​ ​ ​ ​Horário de Verão (Março a Outubro)
Abertura ​Almoço Encerramento ​Última Entrada
​09H00 ​12H30-14H30 ​19H00 12H00 e ​18H30
Horário de Inverno (​Novembro a Março)
​09H00 ​12H30-14H30 ​17H30 ​12H00 e 17H00
Dia de encerramento: 2ª feira e feriados de 25 de Dezembro e 1º de Janeiro. Para mais informações sobre o Encontro Nacional de Veículos Militares Antigos / Um Dia no Museu Militar – Elvas 2017, contacte a Associação Portuguesa de Veículos Militares pelo email apvmilitares@gmail.com.

 Nota importante [👤]

As presentes informações não têm natureza vinculativa, funcionam apenas como indicações, dicas e conselhos, e são susceptíveis de alteração a qualquer momento. O Blogue OLIRAF não poderá ser responsabilizado pelos danos ou prejuízos em pessoas e/ou bens daí advenientes. Se quiser partilhar ou divulgar as minhas fotografias, poderá fazê-lo desde que mencione os direitos morais e de autor das mesmas.

linhagraficaALL-oliraf-03💻  Texto: Rafael Oliveira 🌎 Fotografia: Oliraf Fotografia 📷

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Fotografia✈︎Viagens✈︎Portugal © OLIRAF (2018)

⛏ À descoberta da Rota do Mármore: uma viagem fotográfica pela indústria extrativa do Anticlinal de Estremoz.

⟟ O Alentejo é um território com vastas e reconhecidas potencialidades estratégicas,  onde podemos incluir o turismo industrial e cultural. A Rota do Mármore do Anticlinal de Estremoz proporciona uma visita a lugares “invisíveis” que não estão acessíveis às massas turísticas. Trata-se, a meu ver, de um excelente exemplo da dinamização turística, cultural e económica da Indústria extractiva do Mármore e do interior de Portugal, designadamente na região do Alentejo. Nesta visita-guiada pelo núcleo de pedreiras de São Marcos, entre os concelhos de Vila Viçosa do Alandroal, o leitor poderá (re) viver a minha experiência fotográfica e saber um pouco mais sobre a excelência e qualidade do mármore do Anticlinal de Estremoz. Sabia que o “Ouro Branco” é extraído, transformado e exportado para todas as regiões do globo terrestre? Sabia que Portugal é um dos principais e maiores produtores de rochas ornamentais do mundo (Mármore e Granito), a seguir a Itália? Sabia que a residência oficial do antigo líder do Iraque Saddam Hussein tinha mármore alentejano?

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💡 Sabia que…❓⁉️

⛏ Nas pedreiras da região do Alentejo – de Rocha Industrial e Ornamental – “vão-se deixando buracos abertos e morros de desperdício, é um choque visual”: as escombreiras;

⛏ O mármore português foi para o mercado árabe a 20 a 30€ m2 sem acrescentar valor, isto é, não basta a atividade extrativa transformar a matéria-prima em território nacional e, de seguida, exportá-lo. com a conciliação da atividade extrativa e transformadora;

 Originário da cidade de Carrara, na Itália, o mármore italiano tem maior valor económico que o Mármore Português, apesar do último ser único, cristalino e puro; 

A indústria transformadora [do mármore] é 100% sustentável: gera quase 80% da nossa energia, trabalhamos com 95% sempre da mesma água, sempre em circuito;

⛏ O Museu da Tolerância, em Jerusalém, ou o Perelman Performing Arts Center, em Nova Iorque, na zona do World Trade Center têm mármore português.

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Rota do Mármore do Anticlinal de Estremoz, criada pelo Centro de Estudos de Cultura, História, Artes e Património (CECHCAP), é um projecto cultural e de turismo industrial que pretende promover os patrimónios da região alentejana, tendo como ponto de partida o seu recurso endógeno mais abundante: o mármore. Consiste em proporcionar aos visitantes uma experiência invulgar, através de visitas guiadas acompanhadas por uma equipa multidisciplinar (guias-intérpretes, historiadores e investigadores) conhecedores do território, da geologia, da indústria e do património  associado ao mundo do mármore. O objectivo é a promoção de actividades de animação turística, diferenciadora e integradora, através da valorização da história, cultura, arte, a arquitectura, paisagem e gastronomia dos concelhos de Alandroal, Sousel, Borba, Estremoz e Vila Viçosa, visto que a Rota do Mármore AE, está sediada no centro histórico de Vila Viçosa, em plena zona dos Mármores do Alentejo.

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Mármore: o ouro branco da região do Alentejo. A região de Borba, Estremoz e Vila Viçosa constituem o núcleo-base do Anticlinal de Estremoz, uma das mais antigas e produtivas superfícies de extracção de rochas ornamentais em Portugal. As actividades relacionadas com este recurso mineral têm um grande peso na economia regional destes concelhos alentejanos e fomentam a empregabilidade da população local na indústria local, face a uma tradicional ligação ao sector agrícola. O nosso país é o segundo maior exportador mundial desta rocha ornamental, e até a Itália, o maior produtor, compra mármore de origem nacional.  Dai, a importância da certificação desta matéria-prima. Sensivelmente 90 % do Mármore de Portugal é extraído em torno da região de Estremoz: o anticlinal de Estremoz. Esta rocha ornamental é extraída e utilizada há mais de dois mil anos, desde a época romana e islâmica.  O Templo Romano de Évora, a Mesquita de Córdoba ou o Palácio de Vila Viçosa são magníficos exemplos da utilização arquitectónica desta rocha ornamental.

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Um pouco de Geologia…

O Anticlinal de Estremoz situa-se, em Portugal, na região do Alentejo, encerra um um dos principais centros mundiais da indústria extractiva de mármores para fins ornamentais denominado Zona dos Mármores. Localiza-se no sector setentrional da Zona de Ossa – Morena (ZOM), em Portugal, a cerca de 150 quilómetros a leste da cidade de Lisboa. Faz parte de um importante estrutura geológica em que diferentes rochas se distribuem no espaço por acção da deposição de sedimentos e materiais provenientes de antigos vulcões que terão acumulado numa bacia de sedimentação em estratos sensivelmente horizontais. Em virtude da acção das forças tectónicas, todos estes sedimentos foram transformados e deformados, originando, respectivamente, rochas metamórficas e dobras na crosta terrestre, fazendo com que as rochas que se encontravam umas sobre as outras passassem a estar lado a lado.

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No fundo, um Anticlinal é uma estrutura geológica geometricamente simétrica, em que a convexidade está voltada para cima, denomina-se antiformas (o núcleo destas estruturas contém as rochas mais antigas). Que tipo de mármores podemos encontrar no Anticlinal de Estremoz? Podemos encontrar diferentes mármores de inúmeras cores, tais como, os cinzentos e por vezes escuros (mármore azul e ruivina), Mármores claros, cremes e róseos limpos ou de vergada fina castanha e acinzentada e Mármores claros com vergada, róseos e creme com vergada xistenta espessa. 

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A primeira parte da visita-guiada consistiu num percurso pedestre pelo núcleo de pedreiras de São Marcos, nas proximidades de Vila Viçosa (EN 255), onde o visitante é elucidado pela importância geológica, histórica, económica, cultural e ambiental da exploração desta rocha ornamental  no Anticlinal de Estremoz, sempre respeitando as indicações de segurança (uso de capacete e colete reflector) e as normas básicas de civismo, visto que as explorações são propriedades privadas. Comprovamos, através de uma panorâmica do local, que a fisionomia de uma pedreira é ditada pelos seguintes factores: a topografia, pela disposição dos filões e pela adaptação de materiais e técnicas usadas na exploração. Antes de iniciar a lavra, a primeira operação é a limpeza do mato à superfície e a remoção de rochas consideradas inferiores. De seguida, após a instalação da maquinaria de suporte à pedreira, a exploração económica dos recursos poderá ser feita por bancadas ou por fossas.

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No Anticlinal de Estremoz existem cerca de 200 pedreiras em actividade para um total de, aproximadamente, 370 cortas existentes e estas unidades extractivas espalham-se pelos vários núcleos de exploração e transformação. A maioria das pedreiras são a céu aberto e tem uma profundidade que varia entre os 15 e os 50 metros, existindo no entanto explorações com profundidades mais elevadas, possuindo a mais profunda cerca de 110 metros. Aliás, existem explorações que fazem, excepcionalmente, lavra em galeria.

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Para atingir tais profundidades, as firmas e os trabalhadores da indústria do mármore utilizam o fio diamantado para o corte de grandes blocos de mármore. Este fio surgiu para substituir as inconveniências técnicas do fio helicoidal, visto que as rochas ornamentais como os granitos são materiais com grande resistência que os mármores. Dai, a sua aplicação à indústria extrativa do mármore. A escolha de um fio tem sempre em consideração os  factores de produtividade e a tecnologia utilizada no corte (máquina em que irá trabalhar, a pedra que o cliente irá serrar, a maior  durabilidade e a rapidez do corte).

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As gruas tipo Derrick são maquinismos com um grande impacto visual, económico e tecnológico nas explorações de extracção do mármore. Estas começaram a ser montadas e utilizadas a partir do final da década de 60 do século passado, após a finalização da construção da ponte Salazar (actual Ponte 25 de Abril), visto que os equipamentos usados para a construção das infra-estruturas foram vendidas a diversas firmas portuguesas pela responsável da obra, a United States Steel Export Company, incluindo algumas empresas metalomecânicas que adaptaram-nas às pedreiras locais de indústria extrativa do AntiClinal de Estremoz.

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Em virtude de a lavra fazer-se em céu aberto e cada vez a profundidades mais profundas, as gruas tipo Derrick passaram a ser maiores para retirar grandes blocos de pedra, substituindo, assim, o arrastamento com recurso aos Crapauds pela elevação. Trata-se de um dispositivo fixo, constituído por um grande mastro que gira mas não se inclina, que se move para cima e para baixo para elevar ou baixar pesos. Para suportar a distribuição do peso da estrutura de metal, estas gruas eléctricas são munidas de dois ou mais braços laterais fixados ao solo.

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Todavia, a exploração de mármores no Anticlinal de Estremoz apresenta alguns problemas relacionados com a evolução da actividade da lavra intensiva. Sabia que num século extraiu-se mais mármore que em dezanove séculos? Estas alterações resultam da evolução do processo extrativo e inovação tecnológica  proporcionada ao longo do século XX, promovendo uma rápida exploração esgotamento da matéria-prima, bem como a degradação e fracturação dos mármores devido à concentração de tensões junto dos taludes. De facto, a maioria das pedreiras são encerradas, pós o corte, arranque e remoção dos blocos de mármore de várias toneladas, e por norma aterrada com recurso à pedra extraída, amontoada nas escombreiras, mas não valorizada economicamente.

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As escombreiras acumulam enormes quantidades de depósitos de material não comercializado e acumulado junto às pedreiras, o que causa grande impacto visual, ambiental e económico na exploração do território envolvente às pedreiras. A Rota do Mármore tem alertado as empresas do sector para esta situação, bem como tem contribuído para a educação e preservação ambiental, através, de um conjunto de percursos distintos que alertam para o reordenamento do sector extractivo e a necessidade de compatibilização da actividade extractiva com a exploração turística sustentável do território do anticlinal de Estremoz.

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Na segunda parte da visita-guiada, os visitantes puderem acompanhar o quotidiano de uma unidade industrial de transformação de mármore: a Margrimar – Mármores e Granitos, S.A. Aqui, podemos visualizar diferentes processos industriais que transformam esta rocha ornamental para ser utilizada na construção civil, sejam em grandes obras públicas ou pequenas obras privadas. Verifica-se uma grande utilização de diversas tecnologias  que utilizam discos e láminas diamantadas  nas diversas máquinas de corte desta rocha ornamental o que, por sua vez, revelam um grande consumo de água para evitar a quebra das mesmas durante o processo de corte. Após o corte dos blocos de mármore em diversas dimensões, conforme as necessidades dos clientes, as mesmas são alvo de um processo de embalagem em paletes de madeira aguardando o destino final para outras latitudes.

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Nesta unidade industrial, o visitante pode ainda contactar com um poucos exemplares do guincho diferencial (Crapaud) produzido pela empresa Joaquim José Ramos. Estes “veículos” motorizados de origem belga foram utilizados na extracção do mármore, a partir da década de 40 do século XX, em inúmeras pedreiras da região do Alentejo. Trata-se de uma inovação tecnológica (Arqueologia Industrial) produzida pelas empresas metalomecânicas locais, de que ainda subsiste um exemplar, para a indústria dos Mármores. Importa salientar que estes Crapauds eram cópias de modelos de empresas estrangeiras, adaptadas e melhoradas tecnologicamente em função das necessidades e realidades da indústria de extracção local. Movidos a diesel, com motores Lister de origem inglesa, podiam mover uma carga máxima de 160 kg /mm2, utilizando o método de retirar blocos de pedra através de elevação por arrastamento, dando, assim, uma maior robustez, segurança, força e capacidade para puxar o mármore.

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O transporte rodoviário é essencial para o escoamento do mármore extraído do Anticlinal de Estremoz, visto que a região do Alentejo é parca em transportes ferroviários de mercadorias (o comboio  de passageiros só tem ligação à cidade de Évora). A meu ver, esta situação deve-se à facilidade de ligações rodoviárias (A6 e N255) com o litoral português (Porto de Setúbal, Sines ou Lisboa) e à proximidade geográfica com a fronteira luso-espanhola que permite exportar grandes quantidades de blocos de mármore para o continente Europeu e outras regiões do globo. Aliás, a maioria das pedreiras da região do Anticlinal de Estremoz situam-se junto a estradas nacionais (N4 e N255) e da auto-estrada que faz ligação a Espanha (A6).

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A fachada do Palácio Ducal de Vila Viçosa (remonta aos primeiros anos do século XVI as obras da fachada principal, sob a ordem do Duque de Bragança D.Jaime) é um belo exemplo da aplicação desta rocha ornamental, em virtude da rara qualidade e beleza do mármore alentejano. De facto, a rocha ornamental desta região portuguesa está presente em abundância no património arquitetónico, histórico e artístico da região, mas também no resto do país e em todo o mundo, o que torna este recurso um digno embaixador de Portugal e do Alentejo. Quem diria que, a mais de 100 metros, em Vila Viçosa,são extraídas toneladas de mármore para ornamentar inúmeros edifícios do Mundo inteiro, por exemplo o Palácio de Versalhes  (França), Mosteiro do Escorial (Espanha), Cidade do Vaticano (Vaticano) e Franklin National Memorial (EUA).

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As pedreiras são o exemplo são o resultado da exploração das paisagens naturais que dão lugar a paisagens industriais,isto é, alteradas pela mão do Homem. Para quem faz a Estrada Nacional 255, entre as localidades alentejanas do Alandroal e Vila Viçosa, não fica indiferente à paisagem envolvente, onde emergem as inúmeras escombreiras e as gruas Derrick, que se sucedem-se à medida que nos aproximamos da terra da poetisa Florbela Espanca. Através desta visita-guiada, dotada de uma temática invulgar e específica e, por isso, não familiar à grande maioria do público, a Rota do Mármore proporcionou-me uma oportunidade de conhecer de forma mais aprofundada o sector da indústria extractiva dos mármores da região do Alentejo. Trata-se, na minha opinião, de um bela comunhão entre o património edificado e o turismo industrial. De facto, o Alentejo é actualmente um território pouco explorado, preservado e seguro  das massas turísticas, onde a sua história é marcada pelo património a descobrir e pela cultura popular que lhe (ainda) conferem identidade e autenticidade. A Rota do Mármore do Anticlinal de Estremoz proporciona uma forma diferente de conhecer uma das mais antigas e produtivas superfícies de extração de mármores do nosso país, bem como a promoção do património edificado (material e imaterial), a típica gastronomia local e as belezas naturais que dão cor, forma e conteúdo ao Alentejo.

A Rota do Mármore AE é…uma forma diferente de conhecer o melhor do Alentejo!

Para mais informações:

Esta visita-guiada foi realizada no âmbito das Jornadas Europeias do Património – 22,23,e 24 de Setembro de 2017, subordinadas ao tema “Património e Natureza. Pessoas Lugares e Histórias”. O caliponense, o Dr. Carlos Filipe, um dos mentores do projeto de Turismo Industrial do Anticlinal de Estremoz, foi o nosso guia nesta viagem pela @rota_do_marmore_ae. O Blogue OLIRAF agradece a visita de contemplação de paisagem natural e edificada ao “Mundo dos Mármores” da região do Alentejo.

Alves, Daniel (ed.), Mármore, património para o Alentejo: contributos para a sua história (1850-1986), Vila Viçosa, Centro de Estudos de Cultura, História, Artes e Patrimónios, 2015.

Rota do Mármore do Anticlinal de Estremoz

Coordenadas 38.776871,-7.418105 (ver no mapa)
Largo D. João IV, 40A
7160-254 – Vila Viçosa
Telefone: +351 268 889 186 / 965 087 618

Nota importante

As presentes informações não têm natureza vinculativa, funcionam apenas como indicações, dicas e conselhos, e são susceptíveis de alteração a qualquer momento. O Blogue OLIRAF não poderá ser responsabilizado pelos danos ou prejuízos em pessoas e/ou bens daí advenientes. Se quiser partilhar ou divulgar as minhas fotografias, poderá fazê-lo desde que mencione os direitos morais e de autor das mesmas.

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Texto: Rafael Oliveira  | Fotografia: Oliraf Fotografia

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